Treinamento

Treine sua mente e melhore a sua performance atlética (Parte 1)

Por Elias de França

Por muito tempo acreditava-se que aquela sensação de esforço durante o exercício físico advinha exclusivamente do tecido muscular e de outros órgãos (p. Ex. coração, pulmões) envolvidos ativamente durante o exercício (1). Acreditava-se que estes órgãos e tecidos possuíam receptores que mandavam informações para o cérebro que consequentemente (dependendo da intensidade do exercício) poderia induzir o aumento da percepção subjetiva de esforço (PSE) junto do aparecimento da fadiga (daí surgiu a escala de Borg e a teoria do “Governador central”)(2).

Entretanto, os avanços nos estudos na área da fadiga integrada (quando se analisa simultaneamente fadiga periférica e central) vem demonstrando que a PSE é um fenômeno que tem influência do próprio cérebro, e não do músculo ou órgãos envolvidos no exercício(3-5).

Por exemplo, alguns experimentos demonstraram que quando há inibição nos nervos aferentes (que mandam informação da periferia para o cérebro) dos músculos e órgãos envolvidos no exercício, não há qualquer alteração na percepção de esforço ou nos parâmetros de fadiga (7). Entretanto, quando há uma inibição parcial nos nervos eferentes (impulsos dos nervos derivado da Área Motora Suplementar (AMS) para área sensorial) ocorre a diminuição da percepção de esforço (4,5). Esses impulsos nervosos são conhecidos como Cópia Eferente ou Descarga Colorária-DC, e é uma cópia das informações do estímulo nervoso enviada (da AMS) para a periferia (ou seja, tecido  muscular) (5,6).

Figura. Descarga Colorária (DC) e sua influência na Percepção de Esforço Subjetiva. Figura retirada de de Morree & Marcora (6)

Relativamente ao exercício físico (ou movimento corporal), a DC está envolvida nos processos de controle motor e sensibilidade sinestésica.  A DC carrega informações sobre a intensidade do movimento (gerada pela ASM) e utiliza essa informação como um preditor das consequências daquela ação (p.ex. o quanto de esforço precisa ser aplicado para acertar uma pedra num determinado ponto); o controle intermuscular (p.ex. o sincronismo de músculo agonista e antagonistas) também parece ser dependente das informações advindas na DC; a DC também está envolvida em processos cognitivos de aprendizagem motora; numa atividade física de alta intensidade o excesso de impulsos nervos para gerar uma grande quantidade de movimento também gera uma alta quantidade de DC (estimulando a área sensorial, o que se reflete em alta PSE) (veja a figura abaixo). Nesse sentido, dependendo de como usada e do contexto a DC pode facilitar, inibir ou modular o processo (8).

Alterar a DC antes de uma partida de basquetebol, em teoria, poderia alterar precisão nos arremessos (um ótimo tema de pesquisa), poderia permitir que o atleta desempenhase a partida em uma intensidade maior. Atualmente os estudos que exploram a modulação na DC indicam que atletas de modalidades como corrida ou esportes de tomadas de decisão (que são limitados pela fadiga) poderiam ser beneficiados.

No próximo tópico iremos abordar estratégias de como modular a PES e a DC para aumento da performance. Pra já sugiro uma referência que fala sobre a influência da cafeína na DC(5) (é por esse mecanismo que a cafeína faz você treinar mais pesado) e uma outra sobre fadiga cognitiva e performance antes de provas de endurance(9).  Temos um post que orienta como tomar cafeína para melhora da performance atlética. Ainda, em outro post falamos como surgia a teoria do BCAA como um retardador de fadiga central, veja se bate a história.

 

Referências

1- Inzlicht, Michael, and Samuele M. Marcora (2015). “What Can Exercise Physiology Teach Us About the Nature of Mental Fatigue and Self-Control Failure: Commentary on Evans, Boggero, & Segerstrom, 2015.” Boggero, & Segerstrom (2015).

2- Noakes, T. D. (2012). Fatigue is a brain-derived emotion that regulates the exercise behavior   to ensure the protection of whole body homeostasis. Frontiers in Physiology, 3 APR(April), 1–13. doi:10.3389/fphys.2012.00082.

3- Marcora S (2009) Perception of effort during exercise is independent of afferent feedback from skeletal muscles, heart, and lungs. J Appl Physiol 106:2060 –2062.

4- Zénon, A., Sidibé, M., & Olivier, E. (2015). Disrupting the supplementary motor area makes physical effort appear less effortful. The Journal of Neuroscience, 35(23), 8737-8744.

5- de Morree, H. M., Klein, C., & Marcora, S. M. (2014). Cortical substrates of the effects of caffeine and time-on-task on perception of effort. Journal of Applied Physiology, 117(12), 1514–23. doi:10.1152/japplphysiol.00898.2013.

6- de Morree, H. M., & Marcora, S. M. (2015). Psychobiology of Perceived Effort During Physical Tasks. In Handbook of Biobehavioral Approaches to Self-Regulation (pp. 255-270). Springer New York.

7- Marcora S (2009) Perception of effort during exercise is independent of afferent feedback from skeletal muscles, heart, and lungs. J Appl Physiol 106:2060 –2062.

8- Crapse TB, Sommer MA. 2008. Corollary discharge across the animal kingdom. Nature Reviews Neuroscience, 9:587-600.

9- Smith MR, Marcora SM, Coutts AJ. Mental Fatigue Impairs Intermittent Running Performance. Medicine and science in sports and exercise. 2014.

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