Treinamento

Porque usar o lactato como parâmetro de intensidade

Por Elias de França

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Quando você vai participar de uma prova de endurance de longa duração, qual o parâmetro que você utiliza para determinar à sua intensidade? Isso é um dado importante, caso você esteja buscando um bom desempenho naquela prova. Neste post iremos abordar uma estratégia para você não fadigar antes da linha de chegada e nem chegar nela com a sensação de que não deu o seu máximo.

Relativamente a performance, nestes tipos de prova, não queremos somente completá-las (como à Gabriele Andersen, na olímpiada de Los Angeles, em 1984 ), normalmente nos submetemos ao teste de time trial (ou seja, buscamos sempre o nosso melhor tempo de prova). Entretanto, quando nos submetemos ao time trial, e ainda mais, quando fazemos isto às “cegas” (ou seja, sem nenhuma parâmetro para determinar a nossa intensidade naquela atividade,  a não ser a nossa auto percepção de esforço) estamos sujeitos a vivenciar três situações: 1° desempenhar uma performance menor à que poderíamos desempenhar, isto em termos fisiológicos, caso possuamos uma baixa capacidade de resiliência para exercício físico; 2º ao contrário da primeira, caso possuamos uma alta resiliência, podemos experimentar o “momento  Andersen ”, ou seja, quando o trabalho de contração muscular e produção de energia diminuem significantemente, e assim; 3º vivenciar  intensamente à fadiga central, quando à percepção de esforço se torna relativamente maior para uma mesma intensidade de esforço (este aspecto é facilmente identificado pela escala de Borg), com isso, o trabalho muscular também tende a diminuir e uma vontade incontrolável de para a atividade aumenta drasticamente.

De fato, realizar uma prova de endurance as cegas é como participar de uma corrida de carro (sem conhecer o seu carro), ou seja, você não sabe se o tanto que você está acelerando irá acabar com a gasolina ou superaquecer o motor antes do final. Se você não for um cara empolgado é provável que chegue ao final com o tanque pela metade e como o motor ainda frio, ao contrário, é provável que chegue empurrando-o. O fato é que, tanto na fadiga periférica quanto na central ultrapassamos à nossa capacidade fisiológica de remoção de metabólitos derivado da produção e degradação de substratos energéticos, pois é sugerido pela literatura que tanto à fadiga central (Meeusen, 2014), quanto à periférica (Fitts, 1994) tem origem em alterações bioquímicas no organismo que se intensificam agudamente durante a prática da atividade física (e, quanto maior à intensidade maior a sensação de fadiga). Estas alterações bioquímicas no organismo, em valores críticos, promovem alterações significativas ao ponto de impedir a produção de energia para a atividade (como se fosse cortado o fornecimento de gasolina para o motor trabalhar), além de impedir a continuação da própria ativada de contração muscular (como se o motor parasse de funcionar por estar superaquecido).

Isto posto, uma estratégia que elimine, ou na pior das hipóteses minimize, os três acometimentos mencionado acima, por exemplo, é realizar uma avaliação  metabólica que identifique o início do acúmulo do lactato sanguíneo (ou seja, o teste de OBLA- onset of blood lactate accumulation). Em termos de acuidade, para se obter parâmetros de intensidade para realizar provas de endurance de longa duração, o teste de OBLA  é igualmente eficiente ao teste de ergoespirometria (para identificar o limiar anaeróbio), aos quais só perdem em termos de acuidade para o teste de avaliação da máxima produção de lactato em estado estável- MLSS (método de avaliação padrão ouro, entretanto, muito dispendioso). O mais viável par avaliações rotineiras (apesar de invasivo) é o teste de OBLA.

Em termos práticos, a partir do OBLA você poderá determinar à intensidade da atividade em um ponto limite em que não seja excedida a capacidade fisiológica do seu organismo na remoção de metabólitos relacionada à produção e degradação de moléculas de energia (fatores que levam a fadiga). Com isso, você poderá correr por longos períodos sem entrar em fadiga (saberá o quanto e quando acelerar ou tirar o pé do acelerador).

O OBLA possui uma forte correlação com a intensidade à qual ocorre a MLSS (Denadai et al., 2005), sendo que, estes dois parâmetros são superestimado pela a velocidade critica (outro parâmetro de intensidade para provas de endurance) (Penteado et al., 2014). Diversos estudos tem demonstrado que uso da VC como parâmetro de intensidade ultrapassa a capacidade fisiológica de remoção de metabólitos, o que leva a fadiga precoce. Veja um exemplo do que pode ocorrer se você começar uma corrida de longa duração numa intensidade acima do limiar de lactato.

De fato, a partir do OBLA é possível identificar um ponto limite em que o organismo consegue impedir que a acidose metabólica alcance valores críticos, prejudicando, por exemplo, o metabolismo de energia e contração muscular, além de aumentar exponencialmente a percepção de esforço relativamente à intensidade.  Nesse sentido, a utilização de parâmetros metabólicos torna-se necessária quando o objetivo for realizar uma prova de endurance de longa duração, sem entrar em fadiga antes da linha final, e, também, não apenas completar o percurso sem dar o seu máximo, de forma eficiente (ou seja, não “pisar fundo” no acelerador para não atravessar a linha de chegada empurrando o carro, mas também não “tirar o pé” de forma a chegar com o tanque cheio).

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Referências:

DENADAI, B. S.; GOMIDE, E. B. G.; GRECO, C. C. The relationship between onset of blood lactate accumulation, critical velocity, and maximal lactate steady state in soccer players. The Journal of Strength & Conditioning Research, v. 19, n. 2, p. 364-368,  2005. ISSN 1064-8011.

FITTS, R. Cellular mechanisms of muscle fatigue. Physiological reviews, v. 74, n. 1, p. 49-94,  1994. ISSN 0031-9333.

MEEUSEN, R. Exercise, Nutrition and the Brain. Sports Medicine, v. 44, n. 1, p. 47-56,  2014. ISSN 0112-1642.

PENTEADO, R.  et al. Physiological responses at critical running speed during continuous and intermittent exhaustion tests. Science & Sports,  2014. ISSN 0765-1597.

Matéria originalmente publicada em RunningFreeSport

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